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"O homem traz em si a santidade e o pecado / Lutando no seu íntimo / Sem que nenhum dos dois prevaleça. / O homem tolo se põe a lutar por um lado / Até perceber / Que golpeia e sente a dor / Ele é o alvo da própria violência." (O Homem - Os Paralamas Do Sucesso)
Me recordo de ontem. Aconteceu na penúltima - finalmente - aula de Ed. Física. A turma das meninas juntou toda e a professora nos saiu com a doideira: pique ameba. Consiste numa brincadeira que tem como objetivo implícito - para mim - a individualidade. Uma menina pega uma bola de queimada, tenta queimar uma qualquer vagando pela quadra enorme. Se ela acertar, a menina acertada vira uma ameba. Virar ameba = A menina fica agachada, sentada ou de quatro (pegou mal né oÕ mas era assim mesmo) e só podia se locomover engatinhando, rastejando como nos campos de guerra ou de joelhos. Para voltar a ser humana, ela tinha que encostar em alguma outra menina que fosse "humana" ou pegar a bola - se estivesse com sorte - e sentada, tentar queimar alguém em pé. Se encostasse em alguém ou queimasse, a pessoa atingida virada ameba no lugar dela e a ameba voltava a ser "humana" novamente. E as meninas corriam, jogavam, corriam, queimavam, corriam...Mesmo que a "humana" tentasse ajudar uma amiga sua que fosse ameba: era uma coisa ou outra. Se a "humana" parasse para localizar a amiga, até tampar a bola, outra ameba ia lá e encostava a mão nela. Resultado: virou ameba.
E é exatamente aí que entra a individualidade. Se entendeu tudo até aqui, acompanha meu raciocínio.
Se uma "humana" tampasse para uma ameba a bola, a ameba provavelmente queimaria a "humana" que a ajudou, se assim achasse mais fácil. Ou então você vira uma "ameba". Você sai desesperadamente atrás de outras meninas tentando puxar a perna delas no susto e voltar a ser "humana" novamente. Não importava no momento quem fosse, não importava nada além do voltar a ser "humana" novamente. Eu mesma queimei minhas amigas, e confesso que às vezes mirava mais nelas do que nas outras meninas. Amigas minhas me queimaram e eu virava ameba o tempo todo. Voltava a ser "humana" o tempo todo. Sinceramente, estava parecendo filme de terror. Daqueles em que mocinhas fogem de monstros rastejantes. Todas as meninas estavam falando que estava parecendo também. Quando eu virava ameba, parava um pouco e sentava. Observava as outras morrendo de correr. Era bem assustador.
E, passado os 50 minutos de aula, as meninas saíram com um riso no rosto, gargalhadas no eco da quadra, cantarolando "eu sou uma ameba, eu sou uma ameba"...Aí, meu drama tinha virado palhaçada perto de tantos risos. Ainda que individuais, eram risos.